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 Abril 26, 2016 @ 12:00 am

Guia também pode ser motorista?

publicado por Luciana Ribeiro

Guia também pode ser motorista?
 

Queridos leitores do VPO, que saudade!

Tenho aparecido pouco, mas ando vivendo tanta coisa nova, tanta coisa boa! Vocês acreditam que, além de algumas compras e muitas lembranças, eu e meu marido voltamos da Disney grávidos?! Mal tive tempo de sofrer de DPD (a famosa depressão pós disney), cheguei já tendo essa novidade maravilhosa pra contar e desde então, tudo mudou.

De qualquer forma, já faz tempo que gostaria de trazer um assunto para discussão: quando em Orlando, o guia também pode ser motorista? Depois de ter a experiência de, além de conduzir o grupo ao longo do roteiro nos EUA, ser também a motorista do grupo, achei que seria muito válido trazer algumas considerações, e devo lembrar que estou me baseando na MINHA experiência, e que qualquer outro profissional pode ter vivenciado tudo isso de maneiras diferentes, com pontos de vista diferentes, ok?

Bom, viajei como um pequeno grupo de 13 passageiros, e por questões diversas, a operadora optou por utilizarmos uma van como nosso meio de transporte - era aquela van grandona de 15 lugares, mais ou menos como essa da foto aqui embaixo.

Ford Transit 250

Como eu já estava habituada a dirigir em Orlando, não precisava me preocupar quanto aos caminhos que iria fazer e ter um GPS seria dispensável, bastou apenas me adaptar ao tamanho do automóvel, maior do que qualquer outro que eu já tinha experimentado. Foi preciso apenas redobrar a atenção na hora de fazer as curvas e de estacionar, pois a van é bem mais longa do que os nossos carros comuns. Porém, se você não tem tanta experiência e não conhece tão bem a cidade, prepare-se muito bem quanto aos trajetos a serem realizados: além da responsabilidade natural pela segurança e bem-estar de todos, você ainda sofrerá, mesmo que de leve, uma certa pressão para não errar o caminho, afinal de contas, quanto mais tempo rodando na rua, menos tempo o grupo aproveita nos parques. Já pensou se você se perde?

Por se tratar de um automóvel menos utilizado por turistas, não é tão simples encontrar uma van deste porte para retirada em qualquer locadora, tive que retirar no aeroporto de Orlando, e eis aqui nosso primeiro desafio: como transportar passageiros e malas num automóvel feito apenas para pessoas? É claro que não caberia, e por isso a solução foi utilizarmos o traslado da Disney até o hotel (já que nos hospedamos dentro do complexo) para que depois eu retornasse ao aeroporto e voltasse motorizada.

Quanto a documentação, o processo foi semelhante ao que aconteceria com um carro menor. Apresentei minha habilitação brasileira, meu passaporte, meu cartão de crédito, e pronto! Não há necessidade de habilitação especial para van, bastava apenas que meus documentos estivessem válidos. Ah! Importante: mesmo que a empresa seja a responsável pelas despesas da locação e mesmo que tudo já esteja pré-pago, ainda assim você será obrigado a apresentar um cartão de crédito internacional em seu nome, então vá preparado tendo cartão previamente liberado junto à operadora no Brasil e com limite disponível. Caso você não utilize cartão de crédito, converse com seu contratante e verifique o que pode ser feito.

Em relação ao tamanho da van: é um carro confortável e seguro para 15 passageiros, mas não há praticamente nenhum espaço de porta-malas, sendo o fundo embaixo do último banco insuficiente quando o assunto é a quantidade de sacolas de um grupo de turistas em Orlando. Diante do fato, imaginem como foi retornar do Wal Mart e dos shoppings!

Por mais que o guia avise o pessoal quanto a falta de espaço, por mais que os passageiros vejam com seus próprios olhos que não há onde transportar tantas sacolas, como impedir que eles façam suas compras? A solução aqui foi a contratação de uma segunda van para os dias de shopping, de forma que todos pudessem transportar seus novos pertences com um pouquinho mais de conforto. Felizmente, tive a sorte de encontrar um grupo muito bonzinho e até muito contido nos gastos, mas e se, por exemplo, eu tivesse me deparado com um grupo de mães fazendo enxoval para seus bebês? Se cada uma resolvesse comprar um carrinho, o que faríamos?

Entre outros fatores, o perfil do grupo é algo que deve ser levado em conta no momento em que a operação determina o tipo de transporte – ao guia caberá apenas executar, e em 99,9% das vezes ele não tem autonomia nenhuma (e nem reserva financeira) para assumir despesas extras em função de desafios relacionados ao meio de transporte escolhido. Seja como for a orientação dos passageiros no Brasil por quem realizou a venda, sobra para o guia atuar com bom senso e muito jeitinho na hora de resolver esses problemas de falta de espaço... então, vale a pena conversar com o grupo, criar um clima de colaboração e incentivar que sejam práticos na armazenagem das compras. Uma boa dica é que os passageiros levem mochilas e se desfaçam de sacolas, isso ajuda a reduzir o peso e o volume não só na volta ao hotel dentro da van, como na hora das compras também.

Ah! Atente-se para este detalhe, que pode acontecer com você também: quando se tem o próprio meio de transporte, também se ganha em flexibilidade. Você acaba tendo mais liberdade quanto aos horários de saída e retorno, MAS, também vai ter sempre alguém querendo “dar uma passadinha” em algum lugar que não está incluso no roteiro. Converse com seu contratante e verifique como deve proceder, pois atender as demandas extras pode ser um grande tiro no pé! Você agrada ao passageiro, mas atrapalha toda a programação, e isso normalmente afeta o grupo todo. Nem todo mundo fica feliz e você pode acabar gerando mais frustração do que satisfação. Tenha cuidado.

Por fim, acho que um dos pontos mais relevantes é: você está preparado para lidar com a responsabilidade? Você terá paciência para encarar o trânsito de todos os dias, na ida e na volta? Você terá um auxiliar para dividir a carga com você? Você terá tempo para descansar? Ao meu ver, e reforço que esta é a minha opinião pessoal, um guia não deveria ser o responsável pelo volante, especialmente se não houver um auxiliar junto com ele. O trabalho do guia por si só já é muito desgastante, requer muita resistência física e muito equilíbrio emocional... por mais incrível que o dia tenha sido no parque, é inevitável que o guia chegue ao final das atividades esgotado, sem energia. Será que este guia estará bem-disposto para conduzir seu grupo com segurança todos os dias, especialmente na volta? Pegar estrada e transportar pessoas é coisa mais séria do que parece, e acho fundamental que qualquer guia pondere a questão antes de aceitar o trabalho.

Para quem encara o desafio então, algumas dicas práticas:

  1. Tenha sua habilitação sempre em dia e converse direitinho com a empresa quanto as despesas relacionadas ao uso da van/carro como meio de transporte. Informe-se sobre a cobrança de pedágios, verifique como serão pagas as despesas de estacionamento e combustível e fale sobre o uso do seu cartão de crédito – pode ser que você precise dele para suas despesas e não haja limite suficiente, então não deixe de esclarecer direitinho essa questão!
  2. Já que falamos em estacionamento... na hora de marcar o horário de saída matinal, calcule e inclua em seu roteiro um tempo extra para o estacionamento. Ao invés de ser deixado “na porta” com seu grupo, vocês terão que seguir o fluxo na hora de estacionar e caminhar até a entrada, o que costuma levar mais tempo – eu costumo adicionar meia hora. Caso não queiram sair mais cedo, esteja ciente de que isso pode afetar seu tempo no parque.
  3. Nunca deixe seu automóvel com o tanque na reserva! Faça o possível para abastecer sem o grupo, em momentos nos quais eles estejam descansando no hotel ou mesmo durante o tour de compras, caso possa se ausentar. É muito comum que os postos, especialmente aqueles no caminho para os parques, fiquem cheios nos horários de entrada e saída, então tente evitar o rush e programe-se adequadamente levando em conta que o trânsito pode atrapalhar um pouquinho.
  4. Caso tenha em seu grupo idosos ou pessoas com problema nas pernas, providencie uma daquelas escadinhas para o embarque, pois as vans costumam ser mais altas para entrar. Ajude-os na hora de descer também, segurando-os pelas mãos até que estejam firmes no chão.
  5. Jamais saia sem ter a certeza de que todos estão com os cintos de segurança afivelados.
  6. Estabeleça com seus passageiros uma rotina de limpeza de forma que, a cada vez que deixarem a van, recolham seu lixo e objetos que deverão voltar para o quarto. Isso ajuda a reduzir os esquecimentos e deixa o visual mais aconchegante – mesmo assim, faça você uma boa verificação todas as noites, eles sempre deixam alguma coisa passar! Ah, e se possível, compre aqueles cheirinhos para carros, eles deixam um odor agradável e todos saberão que você se importa com seu bem-estar e conforto.
  7. Prepare-se quanto ao repertório musical e organize-se com o grupo de forma que todos os gostos possam ser atendidos igualmente – pesquise as rádios locais e tenha sempre em mãos um pen drive ou um daqueles cabos que conectam com o celular, sempre haverá alguem querendo bancar o DJ e a experiência pode ser muito divertida!
  8. Caso ainda não conheça as leis de trânsito locais, informe-se. Você deve andar na linha e não vai querer correr o risco de ser multado por puro desconhecimento, certo?
  9. Prepare-se bem quanto as rotas a serem seguidas, tenha em seu celular aplicativos como o Waze, Here ou Google Maps para seu direcionamento e não deixe de utilizar o GPS já fornecido pela locadora. Como um reforço, estude o mapa local e o trajeto a ser feito no dia seguinte.
  10. DESCANSE sempre que possível e durma bem, você precisa estar disposto para dirigir também.

Então é isso. Boa sorte e muito cuidado!

Luciana Ribeiro
Change Treinamento em Turismo

 


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